quinta-feira, dezembro 06, 2007

Três

As mãos não se soltaram mais. Talvez por alguns rápidos segundos, misto de indecisão e impossibilidade, mas não se soltaram mais. Eles caminhavam lado a lado e as mãos assim permaneceram. Juntas, coladas, grudadas. Ela ainda estranhava um pouco a situação quando olhava para ele, e continuaria estranhando pelas próximas horas. Mas ao mesmo tempo, apesar do estranhamento, era tão bom vê-lo ali pertinho, mesmo sendo assim, meio de lado, já que ela mal conseguia forças para encará-lo de frente. Todo um quebra-cabeça se juntava, pecinhas guardadas há tanto tempo que agora tomavam forma concreta e real. Era bom e ao mesmo tempo meio assustador. Dava uma sensação estranha no estômago, tudo ainda meio revirado, meio mexido. Não dava pra ser natural. Era ele. Esperou tanto por ele, como tratar aquilo com naturalidade e não com a reverência necessária? Sorria sem parar, falava demais, naquela ânsia de parecer divertida, alguém agradável de se estar perto. Insegura demais. Tinha medo, tanto medo, de tudo dar errado. Queria que ele a achasse perfeita, mesmo ela sabendo que não era, nem nunca seria. Tinha vontade de invadir os pensamentos dele naquele momento. Descobrir o que ele estava achando, o que sentia ao finalmente encontra-la. Buscava sinais, mas eles não vinham. Ele parecia tão tímido, talvez até um pouco mais do que ela imaginava. Tão desprovido de desembaraço quanto ela. Mas isso não era ruim. Pelo contrário. Os aproximava ainda mais, e mais. Como se fosse possível estar ainda mais próximo dele. Intimamente conectados, ligados. Era ele, ali. Ela mal podia acreditar. Mas ainda faltava tanto. Faltava que relaxassem, que parassem de barrar aquele sentimento todo. Ela sabia o tamanho das barreiras que construía em volta dela mesma. Imensas, grandiosas mesmo. Mas não queria se defender dele. Não mais. Mas como controlar? E enquanto isso, no mundo real, tudo, tudo, absolutamente tudo dava errado. A empresa não vendia passagens para a volta, a padaria não vendia comida decente, a moto quase os atropelava, o ônibus se escondia, e depois os fazia descer no lugar errado, o sol e o calor não davam trégua e não havia uma só nuvem no céu, o shopping se afastava a cada passo que eles davam, a fome apertava e o sanduíche era tão ruim, tão ruim. “O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou?...” Mas os olhos dele eram tão bons de se olhar e aquela mão tão perfeita pra se segurar. Ele ria, brincava, dizia coisas divertidas e ela reconhecia nele aquelas características que a fizeram se apaixonar. Ela se olhava, nos reflexos das vitrines, tentando se reconhecer ali, tentando assimilar que era verdade mesmo aquilo tudo. Se emocionava com detalhes pequenos, curtas palavras que eram tão dele, coisas dela que só ele saberia encontrar. Sentada numa mesa qualquer de um lugar que não importava, ela buscava uma ocupação para as mãos, queria ter o que fazer com elas enquanto não estavam apoiadas nas dele. Ela sabia que seria assim. Tinha medo de estragar tudo. “Eu te amo”, ele murmura, quase sem soltar um som. Ela o encara com seriedade. Também o amava, também o amava. Nem sabia explicar como, mas amava, e só aumentava, e só intensificava. Caminharam mais um pouco, falaram mais um pouco, sentaram mais um pouco, bobagens cotidianas. E então entraram num táxi, silenciando tudo. E eram como Jesse e Celine, lado a lado, sentados no banco de trás de um carro, ansiando por contato, mas sem coragem de se olhar. A vida deles, ela pensava enquanto observava a cidade passando lá fora, era mesmo como um filme alternativo. Uma história tão diferente e ao mesmo tempo tão igual a tantas outras histórias. Com trilha sonora clássica e obscura, roteiro repleto de espera ansiosa, de separação dolorida, de conversas e silêncios intermináveis, de desejo contido e depois escancarado. História sem preocupação de agradar o grande público, mas que atinge a quem interessa, aqueles gostos mais peculiares, mais refinados, que se preocupam mais com a mensagem e menos com a estética holiwoodiana. Sorriu calada quando o carro finalmente parou. Estava, finalmente, vivendo seu próprio roteiro underground. Ainda bem que o grande público nunca entende a verdadeira mensagem, ela pensou, enquanto batia a porta do carro e apertava, mais uma vez, a mão dele.

Um comentário:

Camilinha disse...

Parabéns pelo texto...
me trrou o fôlego!!!

Beijos daqui...