quinta-feira, dezembro 13, 2007

Veneração

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo." (Clarice Lispector)

Daí esses caras todos chegam aqui bem pertinho, quase no pé do meu ouvido, e me explicam. Vem o Caio e diz, senta aqui minha filha, que você tem muito o que aprender da vida ainda. E me fala de amor, e de sexo, com uma simplicidade tão doce, e me explica que a vida pode ser linda mesmo quando não é perfeita. E me diz que pode ser tão mais legal não fazer parte dos padrões pré-estabelecidos. Nunca fui assim, sempre preferi me diferenciar, mas sempre com tanto peso, um peso que não conseguia mais ficar carregando. E me espanto e me enamoro tanto dele que fico que nem boba copiando e colando todos os momentos de epifania que ele me proporciona sem parar a cada texto, a cada conto, a cada frase. E daí vem a Clarice e me diz: ah, menina, você tem tanto o que aprender ainda. Não seja assim tão arrogante. E me fala de humildade, do diferencial da inteligência para o bem e para o mau. E me instiga a refletir mais, e a escrever mais vezes meus pensamentos, mesmo quando eu me sinto assim nesse desinteresse manso que ela descreve. E tenho tanta vontade de devorar tudo o que esses caras já escreveram na vida, e ficar ali só sugando dessa sabedoria toda, que não vem de banco de escola nem nada, vem da vida mesmo, e da observação dela, e da sensibilidade sem tamanho, que dá até inveja. Ai, que inveja de quem se entrega assim, e com tanta qualidade, e se fazendo entender. Daí ela me pega de novo, quase que pelas orelhas, e me explica o que eu passo horas tentando definir. Meu amor pra você, Caio, minha devoção pra você, Clarice, e por favor, se não for pedir demais, as suas bênçãos pra mim, de ambos, que quando eu chegar na sombra da unha do dedinho do pé de vocês eu serei escritora de primeira, sabiam?

"Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio." (Clarice Lispector - Água Viva)

Um comentário:

Camilinha disse...

...é.
Você entende que cada vez que a leveza ocupa espaço dentro de ti, ela te leva para longe da terra-firme e isso acaba sendo insustentável. Na verdade, o que é pesado, de fixa ao solo, te trás a simplicidade e a sabedoria...
Então, o que é melhor: o peso ou a leveza?
Milan Kundera também puxa nossas orelhas em "A insustentável leveza do ser".
E agora?

... eu sugiro minhas reticências e suas moscas...rs.

Beijinhos daqui...