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segunda-feira, agosto 01, 2011

Anteontem



"Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;

Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;

Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —

Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,

Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;

Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;

Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,

A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
(...)

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim."

(Álvaro de Campos - Na Noite Terrivel)

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Tão eu...

"Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?..."

(Fernando Pessoa)

domingo, setembro 12, 2010

Álvaro e eu

"Os meus versos são a minha impotência.
O que não consigo, escrevo-o,
e os ritmos diversos
que eu faço aliviam minha covardia."

(Àlvaro de Campos)

segunda-feira, abril 12, 2010

Melissa e Kapeller 9



De: Kapeller ckapeller@lerolero.com
Para: Mel melissacacia@lerolero.com
Enviada: Segunda-feira, 12 de janeiro de 2010 00:56
Assunto: RES: Re: Re: hey


Saudades de você.
Não dessa você que encontrei ontem.
Mas daquela que precisava de mim.
Com urgência.
Um misto de orgulho e desespero te ver assim, tão forte, tão independente, tão segura.
Me quebra ao meio.
Me machuca de uma forma que eu achava que nada mais faria.
Me faz escrever esse tipo de coisa, do nada, e parar pra pensar no perfume dos seus cabelos.
Bela droga que esse velho aqui se tornou.
Bela droga.
Chris


"...Sabia
Gosto de você chegar assim
Arrancando páginas dentro de mim
Desde o primeiro dia

Sabia
Me apagando filmes geniais
Rebobinando o século
Meus velhos carnavais
Minha melancolia

Sabia
Que você ia trazer seus instrumentos
E invadir minha cabeça
Onde um dia tocava uma orquestra
Pra companhia dançar

Sabia
Que ia acontecer você, um dia
E claro que já não me valeria nada
Tudo o que eu sabia
Um dia..."

(Chico Buarque - Lola - mas poderia ser Melissa)


De: Mel melissacacia@lerolero.com
Para: Kapeller ckapeller@lerolero.com
Enviada: Segunda-feira, 12 de janeiro de 2010 01:42
Assunto: Re: RES: Re: Re: hey


"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."
(Alberto Caeiro)

Eu sou o que você quis que eu fosse.
Os planos mudaram?

Lola


De: Kapeller ckapeller@lerolero.com
Para: Mel melissacacia@lerolero.com
Enviada: Segunda-feira, 12 de janeiro de 2010 01:49
Assunto: RES: Re: RES: Re: Re: hey


"Por que é que você veio me perder
Quer se divertir?..."

Os meus planos mudam a cada minuto.
Quero te ver.

De: Mel melissacacia@lerolero.com
Para: Kapeller ckapeller@lerolero.com
Enviada: Segunda-feira, 12 de janeiro de 2010 02:15
Assunto: Re: RES: Re: Re: hey


Ele desatinou...
Viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ele ainda está ... sonhando, divagando...
Quem não inveja o infeliz, feliz
No seu mundo de cetim, assim,
Debochando da dor, do pecado
Do tempo perdido, do jogo acabado...

Game over, Kapeller...
Game over.

(parceria minha com o Chico, grande Chico)


De: Kapeller ckapeller@lerolero.com
Para: Mel melissacacia@lerolero.com
Enviada: Segunda-feira, 12 de janeiro de 2010 02:28
Assunto: RES: Re: RES: Re: Re: hey


Touché...

"Será que já não vi
De modo impessoal
E em tempo diferente
Um dia estranhamente igual
Dias iguais

Outros olhos
No teu rosto
Vou falar teu nome
E já teu nome é outro
Outra bruma
Sombra de outro sonho, alguém
Na manhã de junho
Outono, outubro, além..."

Adeus, adeus, meu caos...

(Mais? Leia aqui)

quinta-feira, abril 23, 2009

Com amor e desdenho

"Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando
encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista." (O Livro do Desassossego - Bernardo Soares - F. Pessoa)

Pra guardar. Porque ainda vou fazer um personagem baseado nesse trecho.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Desconexo



"...Te vejo e pareço louca
Sem memória, sem história
Até que alguma canção
Algum cheiro ou expressão
Me faça te ver de novo
Mas é rápido, é quase pouco...
E nem dói nada...
Nossa paixão congelada

Não te reconheço mais
Tuas roupas são outras
E soltas de mim
As palavras da tua boca..."

(Nunca Mais - Adriana Calcanhoto)


"Essa noite, o dragão que você perseguia mudou de rumo..."

Foram as últimas palavras dele. Parecia ter acontecido há tanto tempo, mas Melissa ainda era capaz de se lembrar da cena exata. A relatividade do tempo nunca fora tão patente. Não havia sido uma despedida justa. E qual delas é? Aquilo havia marcado tanto. Aquelas palavras rasgaram seu peito. Causaram uma dor inimaginável. Ficar sem ele era como não existir. Era perder parte de sua essência. Era curioso que ele não percebesse. Ou será que percebia? Não importava mais. Christopher, Christopher, Christopher... Um nome que se repetia em sua mente sem parar. Iria vê-lo, iria vê-lo, iria vê-lo... VÊ-LO!! Seria possível que depois de dez anos, depois de tantas mensagens, de tantos e-mails, de tanta poesia escrita e depois rabiscada, de tanto ódio... Porque sim, ela o odiara pelo abandono, pela renúncia, pelo descumprimento daquele que ela considerava como papel de um mentor, de um guia. Fora largada à própria sorte, e, convenhamos, ela certamente nunca foi das mais abastadas.

Foi quando ela sentiu algo. Era como se estivesse viva de novo, e não presa àquele corpo de vampira. Ele estava ali, e Melissa tinha certeza absoluta disso. Percorreu aflita os dez metros que a separavam da porta, que abriu exatamente no mesmo segundo em que ele apertava a campainha. Os olhares se encontraram, e ela sentiu um embaraço, uma estranheza, algo que parecia não combinar com um reencontro daqueles. Fisicamente eles sempre seriam os mesmos, uma das vantagens da imortalidade, mas ela o conhecia bem demais para não julgar a expressão que ele trazia, e não era boa.

Se afastou, dando espaço para que ele entrasse. Déjà Vu. Ou quase. Porque ao invés de entrar, ele surpreendentemente a abraçou. Um abraço forte e inesperado, um gesto que ela jamais esperaria. Não dele, jamais. Foi dominada por aquele cheiro. Almiscar, amadeirado, persistente, que a abarcava, cercava, dominava. Deixou-se abraçar, apanhada de surpresa, conduzida pela voz que parecia resmungar algo em seu ouvido. Um som frouxo, rápido, tanto que ela mal conseguia entender. Era mesmo ele? Falava de saudade? E enquanto aquela barba cerrada machucava seu pescoço suave, marcando a pele fina e quase transparente, ela simplesmente desejou que ele a soltasse, porque aquele não era mais o homem que ela amava, e ela precisava urgentemente descobrir onde ele estava.

"...Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!..."

(Álvaro de Campos)

terça-feira, dezembro 09, 2008

"...Põe quanto és no mínimo que fazes..."

Li esse trecho do título por aí e fiquei aqui a divagar. Isso tem tanto a ver comigo, mas tanto... Tudo o que eu faço tem tanto de mim. E quando não consigo que as coisas tenham minha cara, minha alma, parece que fica tão sem graça, que nem parece meu. E eu então desanimo, me afasto, me canso. Pra algo sair bom, sair com qualidade, temos que nos doar por inteiro mesmo, não tem jeito. Mergulhar de cabeça, dar o sangue e de quebra aquilo que eu sempre falo aqui: as vísceras. E assim em cada lago a lua toda brilha. Lindo, isso... Tinha que ser coisa de gênio mesmo...

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

(Ricardo Reis, 14-2-1933)